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Entrevistas
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Maria Regina Maciel
Presidente do Instituto EFORT

05 de Novembro de 2004

Em um país onde mais de 25 milhões de cidadãos são portadores de deficiência, segundos os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a pedagoga e administradora Maria Regina Maciel mostra que a inclusão desse público no mercado de trabalho não é tão complicada quanto se pensa e oferece soluções viáveis para empregadores.

Pós-graduada em Educação Especial, Regina está à frente do Instituto EFORT, organização sem fins lucrativos que visa oferecer oportunidades para pessoas com necessidades especiais.

Confira a entrevista e saiba mais sobre a instituição, a inclusão social de deficientes e o Telecentro com Acessibilidade Total, que está sendo montado no EFORT com o apoio da VIVO.

Qual a proposta do Instituto EFORT?
Desenvolver e manter projetos educativos e profissionalizantes, visando a inclusão social de pessoas com necessidades educativas especiais, sejam elas portadoras de deficiência, idosas ou jovens com dificuldade de aprendizagem. Seu modelo de sustentabilidade inclui a prestação de serviços técnicos de gerenciamento de projetos, de pesquisa e desenvolvimento nas áreas de energia, informática, telecomunicações e meio ambiente, para pessoas jurídicas públicas e privadas, além de parcerias, que garantem a continuidade dos projetos.

Além de acesso à tecnologia, o que o EFORT vem realizando na área social?
Oferecemos aulas de arteterapia, musicoterapia, coral, dança clássica e moderna, capoeira especial, apoio escolar, teatro, orientação vocacional, colocação no mercado de trabalho, jardinagem e orientação familiar. Mais 8.100 pessoas já passaram por esses projetos desde a criação do Instituto EFORT, em 2001. Hoje, atendemos uma média de 1.720 pessoas por mês. São mais de 11 mil atendimentos por ano.
 
Quem são os principais parceiros do EFORT e qual o papel de cada um dentro do projeto do primeiro Telecentro com Acessibilidade Total?
Estamos ao lado da VIVO, da Prefeitura de São Paulo e da Furnas. A Furnas mantém nossa infra-estrutura. A Prefeitura trouxe para o nosso projeto de inclusão digital o sistema operacional Linux, que é fornecido gratuitamente. E para atender os portadores de deficiência, contamos com o apoio da VIVO, que está fornecendo todos os tipos de materiais didáticos e softwares especiais, TV, aparelhos de som, cadeiras e mesas, computadores adaptados, amplificadores e plataformas elevatórias. A VIVO também repôs os dezoito computadores roubados da antiga sede do Instituto EFORT, e ainda financiou um sistema de segurança para a nova sede.

Como atender em um mesmo Telecentro vários públicos com necessidades diferentes?
Pesquisamos os softwares mais modernos do mundo para montar estações de trabalho. Cada estação será dedicada a um tipo de deficiência. Os cegos, por exemplo, usam um software com voz sintetizada que lê a tela do computador, à medida que o usuário movimenta o mouse e digita. Já o deficiente visual usa lupas especiais eletrônicas, que aumentam em até 100 vezes o tamanho da letra, bem como ajusta a luminosidade da tela, além da impressora Braille. O cadeirante conta com rampas, banheiros e salas adaptadas e uma plataforma elevatória para acesso ao auditório, situado no primeiro andar. Existem ainda pessoas com deficiências nos membros superiores, que precisam de aparelhos especiais para adequar o movimento das mãos ao teclado.

Levando em conta sua experiência ao lado da iniciativa privada, a senhora acredita que hoje as empresas estão mais preocupadas com a inclusão social de portadores de deficiência?
A lei que estabelece uma cota de pessoas com deficiência nas empresas já existe em quase todo o mundo e as corporações estão cada vez mais preocupadas em cumpri-la. No entanto, é comum a iniciativa privada nos procurar com demanda alta e falta de planejamento. Precisamos capacitar os portadores de deficiência para o mercado de trabalho, e isso leva de quatro a nove meses, a depender do curso que iremos oferecer.

Como funciona a capacitação oferecida pelo EFORT?
Os alunos passam por um processo profissionalização, principalmente em informática e orientação para o trabalho, incluído a legislação trabalhista, formação de micro empresa e cooperativa. Em seguida, por meio de instituições como o CIEE e o Capacitação Solidária, levamos os alunos para conhecer mercado de trabalho e estagiar nas empresas. Também temos contato direto com as empresas. Reunimos candidato, família e empregador e esclarecemos as dúvidas, frisando a importância de se tratar o deficiente como uma pessoa normal.

Qual a maior dificuldade encontrada nesse processo?
Quebrar as barreiras do preconceito e adequar o candidato ao um perfil solicitado pela empresa. Fazemos o possível para que a empresa fique satisfeita e assim evitamos que o funcionário volte para casa frustrado, porque não alcançou as expectativas do empregador.

Qual a sua recomendação para a empresa que está aberta à inclusão de portadores de deficiência?
Primeiro, a empresa deve verificar se a lei de cotas está sendo cumprida. Se não, é importante identificar atividades onde é possível explorar muito bem o potencial dos deficientes. Como eles gostam de atividades repetitivas, podem trabalhar com embalagens, por exemplo. Percebemos também que os cegos desenvolvem bastante a comunicação oral. Portanto, são indicados para call centers. Os cadeirantes costumam desenvolver boas habilidades em programação. Já os surdos adoram digitar, pois se concentram facilmente, e também podem atuar em fábricas que produzem muito barulho. Se a empresa tem sensibilidade para descobrir esses e outros potenciais, certamente fará o trabalho de um deficiente render muito. As vagas podem ser oferecidas a instituições que capacitam o profissional, além de acompanhar e orientar o empregador e seus funcionários, treinando a comunicação e o relacionamento com o deficiente.

Na prática, o que as empresas ganham com essa abertura?
Adquirem visibilidade, contribuem para a inclusão social e também ganham um profissional muito produtivo. Geralmente os portadores de deficiência são muito interessados no trabalho, porque sabem que as oportunidades são poucas. Eles procuram oferecer o máximo que podem para manter o emprego.

 

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